Sócia da área de Risk Advisory da Deloitte Touche Tohmatsu, possui mais de 17 anos de experiência em projetos de consultoria, gestão de riscos e compliance em empresas multinacionais, com forte envolvimento em projetos multidisciplinares.

Atualmente lidera as soluções para serviços de Governança, Riscos e Compliance (GRC) da Deloitte com exposição em projetos de âmbito local e internacional.

Participa do Grupo de Trabalho de Combate a Corrupção da Organização das Nações Unidas.

Lidera as iniciativas Anticorrupção pela Deloitte Brasil.

 

Hoje você é sócia da Deloitte na área consultiva e tem assessorado grande empresas em temas relacionados a Compliance. Quais as mudanças que têm observado em relação ao compromisso das empresas com a implementação de programas efetivos de Compliance nos últimos anos?

Se pudesse resumir em poucas palavras, diria que a grande mudança que pude observar nas empresas refere-se a atitude responsável. Nota-se que os recentes acontecimentos que movimentaram o país levaram as empresas, principalmente aquelas que sempre seguiram práticas éticas e transparentes de negócio, a buscarem mecanismos que reforçassem essa transparência no mercado, de forma a serem reconhecidas por isso. Por outro lado, as empresas que ainda não tinham uma estrutura de governança e controles definida, e que de certa forma, “pagaram pra ver”, estão neste momento, buscando adotar estes mesmos mecanismos, pois perceberam a importância de implementarem práticas e ferramentas de gestão sólidas, condizentes com as expectativas do mercado e de nossa sociedade. Daí as mudanças na atitude dos gestores. Isso se reflete, principalmente, no pilar “Compromisso da Alta Administração”, tanto reforçado nos frameworks de compliance. Mecanismos que comprovam este compromisso tem sido o ponto de partida no processo de adoção de melhores práticas de governança pelas empresas.

 

Como enxerga o momento pelo qual estamos passando em relação ao combate à corrupção?

Estamos vivendo um momento histórico em nosso país. Por mais difícil que ele seja, estamos vendo a sociedade se movimentar e questionar aspectos de cunho ético e moral. Vemos as pessoas se manifestarem, expressarem opiniões, acompanharem o andamento de processos legais, monitorarem notícias e mídias sociais e, principalmente, monitorarem seus representantes políticos. Acredito que este movimento trará reflexos positivos para as novas gerações, que crescerão entendendo conceitos fundamentais de ética e conduta e que há tanto havia se perdido. Tenho esperança deste ser o ponto de mudança na cultura de nosso país, quando deixaremos para trás a prática histórica de “tirar vantagem” e “ser esperto”, para nos tornarmos uma sociedade mais justa e coerente em si.

 

Em termos de Compliance o que podemos aprender com a experiência internacional?

São muitos os exemplos que vem de fora. Diversos países passaram por momentos semelhantes com desfechos distintos. Cada um procurou se estruturar e definir mecanismos para mitigação de riscos de corrupção, bem como fortalecer leis e medidas de punição. No caso das empresas, e independente das peculiaridades de cada país, as medidas de governança e controle para mitigação destes riscos são consistentes e similares, como exemplo:

– O Compromisso da Alta Administração;

– A Avaliação de Riscos de Corrupção;

– A Adoção de Canais de Denúncia independentes;

– A Implementação de mecanismos de monitoramento dos itens de maior risco;

– Etc.

Utilizar destas práticas, que são comprovadamente de sucesso, é o melhor caminho (e o mais direto) para implementar o modelo de compliance nas empresas.

 

Qual o benefício para a empresa que efetivamente investe num programa de Compliance?

O maior benefício para as empresas é a proteção de sua marca e reputação. Evitar situações de crise ou escândalos que colocam o nome da empresa em cheque, é o maior benefício que se pode buscar quanto implementa-se programas de compliance. Somado a isso, outros benefícios também podem ser apurados, como a redução de irregularidades nas operações, a melhora da reputação da empresa no mercado e consequente aumento da base de clientes, a redução dos custos de captação de financiamento e taxa de juros, etc.

Importante frisar que o programa de compliance somente trará tais benefícios se for, de fato, implementado em toda a organização, a ponto de modificar a cultura de se fazer negócios. Programas de compliance preliminares, ou “parcialmente” implementados, não trarão tais benefícios, pois cedo ou tarde, falharão em suas premissas mais básicas.

 

Na sua visão, quais as qualificações e competências que um profissional precisa ter para atuar na área de Compliance?

Normalmente as empresas estruturam processos de compliance para tratar, não só de aspectos relacionados a ética, como anticorrupção, lavagem de dinheiro, conflito de interesses; mas também para monitorar a aderência das empresas a aspectos regulatórios adicionais que afetam seu negócio.

Por este motivo, o profissional de compliance deve ter um background forte em processos e controles internos, bem como estar apto a conduzir iniciativas de avaliação de riscos de conformidade. Além disso, deve conhecer as principais regulamentações que afetam o negócio, bem como desenvolver boa interface com as demais áreas, para viabilizar a adequada gestão da aderência regulatória. Deve exercer uma visão independente dos processos e negócios, pois irá prover opinião para tomada de decisão da administração.

Por fim, o profissional de Compliance se diferencia no mercado se conhecer as principais regulamentações internacionais (que também afetam o negócio da empresa), além de se relacionar profissionalmente com reguladores locais.

 

Na sua opinião, como as últimas Cartilhas lançadas pelo IBDEE (“Brindes, Presentes e Hospitalidade: Orientações de Conduta para Relacionamento com o Setor Público” e Código de Compliance Corporativo” podem auxiliar empresários em suas atuações?

As cartilhas oferecem valiosas informações e recomendações sobre assuntos que devem ser considerados nos programas de compliance das empresas. Além de trazer um conteúdo detalhado sobre os mecanismos de conformidade, as cartilhas, por terem sido redigidas por profundos conhecedores das leis, estão totalmente alinhadas as melhores práticas esperadas por reguladores. Desta forma, seguir as cartilhas é trilhar um caminho seguro na busca pela conformidade.

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